- Hey garçom, me vê outra dose de amor.
- Mais uma?
- Sim vamos, me sirva mais uma dose de amor
- Já tem dias que você vem aqui e fica embriagada de tanto amor. Pra que isso menina?
- Pra preencher meu vazio, outra dose de amor, vamos, ande logo!
- Uma dose de amizade?
- Não, outra dose de amor.
- Não entendo pra que tanto amor, há outras coisas que podem preencher teu vazio.
- Nada preenche. Outra dose de amor por favor, que eu preciso amar pelos dois.
- Pelos dois?
- Esquece, não quero falar. Me sirva outra dose, e me deixe sozinha.
- Não vou te servir outra dose. Você mal consegue se levantar, está com os olhos vermelhos de tanto chorar, não come nada e só fica pelos cantos solitária, com o olhar distante se embriagando de amor todos os dias!
- Quanta petulância, ande me sirva!
- Tudo bem, aqui está.
- Obrigada.
- Quer companhia?
- Não, estou bem sozinha.
- Anda tão triste, que chega a dar...
- Pena?
- Sim...
- Não sinta pena, eu odeio que sintam pena de mim!
- Por que essa tristeza?
- Estou bem!
- Não, não está, esconde a tristeza no jeito de andar, no jeito de sorrir, pode até tentar enganar teu próprio reflexo, mas seus olhos andam tão tristes, que te entregam.
- Os olhos só refletem o que há no coração...
- E por que teu coração anda tão triste?
- Ah garçom, eu já disse, ando vazia. E por falar nisso, meu copo está vazio. Ande me sirva, outra dose de amor.
- Tudo bem. Vou servir, um minuto.
- Isso, outra e outra. Quero mais amor...
- Em que está pensando?
- Como o dia pode engolir o vazio?
- Não sei...
- Fecho os olhos embriagada de amor e sonho, enquanto tento enxergar as cores que eu invento o dia a dia não me engole. Mas têm horas que eu olho com os olhos que olha, e fica tão escuro, e você me pergunta se eu estou triste. Não estou triste, ando vazia, perdida nessa escuridão.
- Ah menina, tem procurado coisas sem resposta. Não sabe as respostas. Mas inventa. A mim não convence, anda triste. Não mente pra mim sei que está triste, não pode se embriagar de amor todos os dias.
- Não estou triste, estou desabando. Mas é o único jeito que encontrei de estar com ele, e se for assim, prefiro ser triste.
- Não está certo, não se pode amar pelos dois!
- Hey, o que tinha nessa bebida?
- Amor.
- O gosto está diferente. Me sinto melhor...
- Amor próprio, menina. Amor próprio! Outra dose?