Eu pensei que estava preparada como nunca para o dia lá fora. Desculpem a tremedeira, mas é que eu peguei aquele ônibus apertado pra ir pro trabalho, com pessoas respirando fundo, freneticamente e com inchaços, cansaços, bolsas e olhares travados. Eu peguei aquele ônibus lotado enquanto a minha vontade era fugir do mundo. Ninguém olha pra ninguém. Todo mundo querendo olhar pra fora um pouco. Que vida acontece fora da minha? Eu não sei, e sinceramente não estou interessada em saber, porque mal sei da vida que acontece dentro de mim. Todo mundo quer esconder as rachaduras dos quadros que vendem, eu quero comprar o pior de alguém. Eu quero ver o que cada um esconde, pra poder me afastar sem culpa. Você não vê que eu não espero mais nada da vida? E que não tenho mais nenhuma crença nessa gente? Não assisto os noticiários, engulo a força que o medo tem. Ás vezes dá um desespero e eu preciso conferir como as coisas estão, então eu ligo a TV. Mas depois eu preciso guardar uma imagem da nossa rotina, desse contentamento limitado, desse cruzamento da rua com a praça abandonada, essa música do carro de churros, esse cheiro de tinta fresca na casa ao lado, e o som de carros, crianças e chuva de tarde tudo englobado na mesma lembrança. Depois eu choro.
Eu tenho que dizer que perdi o controle sobre a minha vida, e que ás vezes esqueço a última decisão e acabo cometendo erros esdrúxulos. E que todo dia me pergunto sobre o que eu faço e por que faço, e se esse era o mesmo plano de anos atrás, e se eu teria orgulho de mim como achei que teria na infância. Existe uma pausa infinita gravada em mim. E você me engana quando diz que existem outras janelas com paisagens melhores. Ás vezes a nossa fuga é a própria sentença.
Eu salto do ônibus e um velhinho me diz bom dia, eu respondo. Por educação? Eu não estou tendo um bom dia, e porque havia de querer desejar isso para um estranho? Pura convenção? Eu sei lá, mas ele disse bom dia, e eu respondi sorrindo.
Quarta feira exausta, o cheiro de perfume com o cheiro de final de expediente, e eu já não vejo nada, eu não penso em nada, mas a criança está sorrindo pra mim. Isso tem que significar alguma coisa, eu refleti mais uma vez. Afinal de contas os meus monstros não podem ser maiores do que eu. E eu vejo o quanto o meu sofrimento é nulo quando uma criança sorri pra mim. Um assunto não resolvido e tão cheio de culpa. Eu não quero mais voltar os passos, muito menos trocar de vida com alguém. Isso foi antes. Hoje eu só quero que alguém me tire desse transtorno de não saber como se encaixar sem que transborde. E discutir sem que assuste. E ter todos os tormentos do mundo e ainda assim respirar em par. Porque meu amor, eu sinto até o que não é meu. Por Deus, crianças sorriem como se dissessem que a nossa dor é quase nada, que a nossa cara feia não faz medo em ninguém, que eu me rejeito primeiro e depois me humilho, porque eu to segurando o quadro mais assustador e preciso encontrar beleza nos riscos, no vômito, no escuro de alguém como se fosse algo corajoso. A criança gritou alguma coisa que eu não entendi e sorriu outra vez, eu queria tanto que ela tivesse dito que eu também fui feliz naquele instante. Espero que sim.
Ha algumas coisas das quais você não consegue falar, mas quando chega a noite você revive todas elas, e você não estaria quebrado no chão se naquela época você soubesse o que sabe agora... É pedir demais que alguém seja de verdade? Mas ok, a vida é uma platéia difícil, e aos vinte e quatro eu ainda estou amadurecendo
Eu também não entendo nada.
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