quinta-feira, 16 de junho de 2011

A garota do coração quebrado

   Minha vida toda eu fui educada demais, a melhor aluna, a boa filha, a melhor namorada, a boa amiga, a que sempre ouve, a que sempre compreende, a que sempre ajuda, sempre me diferenciei pelo meu jeito de ser. Nunca tive muitos amigos, sempre me identifiquei mais com os meninos, sempre preferi os filmes românticos, livros e internet do que sair com as amigas fazer compras. A menina meiga, simpática, educada, cdf, amiga de todos, perfeita. A garota perfeita dos textos perfeitos. Foda-se! O que ninguém sabe é que cada texto meu, custa um pedaço da minha alma. 
 Eu estou cansada de ser a garota do coração quebrado. Chorar educadamente, sorrir educadamente, abraçar educadamente. Sabia que isso tudo dá um trabalhão?  Nunca dei uma de louca, nunca bati portas, nunca quebrei pratos, nunca quebrei paredes, nunca deixei de fazer minhas obrigações, nunca matei aula, nunca deixei de estudar pra uma prova, nunca xinguei a professora,  nunca tirei nota vermelha, nunca fiz guerrinhas de giz, nunca pedi pra ir ao banheiro e  demorei pra voltar, nunca faltei do serviço, nunca furei fila, nunca mandei alguém sair da frente, nunca demorei pra responder no MSN sem me importar, nunca roubei, nunca falei palavrão, nunca mandei ninguém a puta que pariu, nunca fiz uma tatuagem,  nunca pintei o cabelo de verde, nunca fumei cigarros ou experimentei qualquer outra droga,  nunca bebi até cair, nunca fugi de casa, nunca dancei a noite inteira de olhos fechados, nunca voltei pra casa totalmente bêbada e com as roupas rasgadas, nunca quebrei o coração de ninguém, nunca iludi ninguém, nunca fiz nada que pudesse machucar alguém. 
 Às vezes eu queria ser diferente, afinal eu nunca ganhei nada sendo a menina boazinha, já cansei de ser certinha, de andar sempre na linha, queria pelo menos uma vez me expor, me atrever, mesmo que fosse uma única vez, queria mostrar o que eu sei fazer. Talvez fosse um pouco divertido ser alguém que não ‘eu’. Afinal se o ‘eu’ de agora ta se fudendo porque não tentar um novo ‘eu’. Quem sou eu afinal? Quantos ‘eu’ eu posso ser? 
 Lembrei- me de uma conversa que tive com um amigo há uns meses atrás, ele me disse que eu posso ser quem eu quiser, basta querer, que não tem nada que me obrigue a ser assim, e que se eu mudasse eu não estaria traindo quem eu sou, porque eu tenho liberdade pra isso, eu posso ser quem eu escolher ser, eu posso mudar. Quem nunca muda se limita a seguir sempre um estilo de vida, e perde a chance de aproveitar o que a vida tem a oferecer, de experimentar outras coisas. Que eu posso acordar amanhã e decidir “não vou ser mais assim, não vou mais gostar disso, agora vou ser assado, agora eu vou gostar daquilo”, e que fazendo isso eu estaria adicionando conhecimento pra mim, explorando uma parte minha que eu jamais conheceria enquanto me limitava a gostar sempre das mesmas coisas. 
 Eu realmente gostaria de acreditar em tudo isso, eu queria às vezes ser estúpida, não ligar pro sentimentos dos outros, queria não ser tão sensível, não me deixar abalar tão fácil, queria não gostar de poemas, teatro e crianças. Queria inventar o meu próprio pecado, e se preciso, morrer do meu próprio veneno, queria perder a cabeça, queria perder o juízo, queria me embriagar até esquecer do mundo, ou até que o mundo me esqueça. Queria acordar e simplesmente dizer: "a partir de hoje eu vou ser assim!"  Ao invés de ser a menina perfeita, simpática e educada, a menina do coração quebrado que sempre se machuca por confiar demais nas pessoas, que tal sair por aí quebrando alguns corações,  que tal um beijo de três segundos que  o deixe querendo mais?  Eu queria que fosse simples assim, mas não consigo me imaginar sendo alguém que não ‘eu’. Afinal de contas, o que define quem eu sou são minhas experiências de vida, o lugar em que fui criada, a maneira como fui criada, as pessoas com quem eu cruzei no caminho, tudo isso é que de certa forma me moldou a ser quem eu sou hoje. Talvez, se eu começasse de novo as coisas seriam diferentes.  Se eu pudesse começar um novo livro, com um novo personagem. Mas eu não posso, não posso simplesmente trocar de personagem na próxima página, eu estaria bagunçando toda a história, tudo que você leu até agora não teria mais nenhum sentido. Eu posso até mudar em certas coisas, posso mudar meu nome, a cor do meu cabelo, aprender novos idiomas, me vestir de outro jeito, fazer uma tatuagem, mas isso de fato não anularia quem eu sou, ao longo da vida eu vou adquirir novas experiências, conhecer novos lugares, ler novos livros, encontrar novas pessoas que me acrescentaram muitas coisas, disso não dá pra fugir. Mas isso tudo só vai estar ‘adicionando’ novos conhecimentos pra minha pessoa. Eu sempre serei a  mesma garota tímida, do sorriso doce, do olhar sincero, que ajuda todo mundo, a mesma garota estúpida do coração quebrado, que esconde o rosto com medo de ser notada. Que fica assistindo a vida passar lá da arquibancada.

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